(Mário Quintana)

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sábado, 25 de setembro de 2010

Voltar a Ser Gente

© Walmir Lima

Voltar a Ser Gente


Fui criado com princípios morais comuns.

Quando criança, ladrões tinham a aparência de ladrões e nossa única preocupação em relação à segurança era a de que os “lanterninhas” dos cinemas nos expulsassem devido às batidas com os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos filmes, nas matinês de Domingo.

Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração.

Quanto mais próximos, e/ou mais velhos, mais afeto.

Inimaginável responder deseducadamente a policiais, aos
mestres, aos mais idosos, às autoridades.

Confiávamos nos adultos porque todos eram pais e mães de todas as crianças da rua, do bairro, da cidade.

Tínhamos medo apenas do escuro, de sapos, de baratas e de filmes de terror.

Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo que perdemos.

Por tudo que meus netos, um dia, temerão e terão que enfrentar.

Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e adultos.

Matar os pais, os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar, enganar, passar a perna, tudo virou banalidade de notícias policiais, esquecidas após o primeiro intervalo comercial.

Agentes de trânsito multando infratores são exploradores, funcionários da indústria de multas.

Policiais em blitz são puro abuso de autoridade.

Regalias em presídios são matérias votadas em reuniões.

Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos.

Não levar vantagem é ser otário.

Pagar dívidas em dia é bancar o bobo - anistia para os caloteiros de plantão!

Ladrões de terno e gravata, assassinos e pedófilos com cara de anjo.

O que aconteceu conosco?

Professores surrados em salas de aula,

Comerciantes ameaçados por traficantes,

Grades em nossas janelas e portas,

Crianças morrendo de fome!

Que valores são esses?

Carros que valem mais do que um abraço, filhos querendo-os como brindes por passar de ano.

Celulares nas mochilas dos recém saídos das fraldas, TVs, DVDs, Vídeo-games...

O que vai querer em troca desse abraço, meu filho?

Mais vale um Armani do que um diploma.

Mais vale um telão do que um bom papo.

Mais vale um baseado do que um sorvete.

Mais valem dois vinténs do que um gosto.

Que lares são esses?

Jovens ausentes, pais ausentes, droga presente. E o presente? Uma droga!

Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo?

Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho?

Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado, na rua, sem sentir medo?

Quando foi que me fechei?

Quero de volta a minha paz a minha dignidade!

Quero de volta a lei e a ordem.

Quero liberdade com segurança!

Quero tirar as grades da minha janela para colocar as flores!

Quero sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de verão.

Quero a honestidade como motivo de orgulho.

Quero a vergonha, a solidariedade.

Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho.

Quero a esperança, a alegria, teto para todos, saúde, comida na mesa.

Discordar do absurdo.

Ter o amor, a solidariedade e a fraternidade como base.

A indignação diante da falta da ética, da moral e do respeito...

Construir sempre um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas.

E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de Abril, leve como a brisa da manhã e, definitivamente, comum, como eu.

Adoro o meu mundo simples e comum.

Utopia?

Não...

Quem sabe?...

Vamos voltar a ser “gente”?




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3 Comentários:

Blogger Anne M. Moor disse...

Ai Walmir!
Quando foi que começamos a perder tudo isso? Mas, no fundo no fundo, não o perdemos não, se escondeu na espera de que abramos os braços e os olhos e lembremos que o que importa é "ser gente", amar e olhar pelos outros. Afinal, "os outros" são um espelho de nós mesmos...

Acabo de chegar de um lugar em que se pode caminhar na rua sem olhar por cima do ombro com medo! Tão bom isso. E, SIM, ainda existe.

Beijos
Anne

27 de setembro de 2010 às 18:49  
Anonymous Jorge Lemos disse...

Walmir

Olho para o Manoel Bandeira e repito: "Vou embora prá Passargada..."

Falo como a Anna: enquanto vivo não posso perder a esperança. Minha voz, por mais rouca que seja, terá ouvidos. Dai...

As perdas receberam, em parte, um pouco da nossa omissão, enquanto forças do mol aproveiram nossos descuidos.
Lute

Jorge Lemos

28 de setembro de 2010 às 09:16  
Blogger Walmir Lima disse...

Anne, Jorge

Ando meio sufocado ao vislumbrar mais uma vitória da iniquidade, a se confirmarem as previsões das próximas eleições.

Passa o tempo e a nossa geração, que fez acontecer os maiores feitos da humanidade, permitiu o avanço das nulidades, tão antes cantado por Rui Barbosa.

Também tenho vergonha.

Quero voltar a ser gente!

Walmir

30 de setembro de 2010 às 16:30  


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3 Comentários:

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