(Mário Quintana)

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sábado, 4 de agosto de 2007

As Benditas Mãos de Dona Chiquita

© Walmir Lima

As Benditas Mãos de Dona Chiquita


Eu, como toda criança ativa e estudiosa, mas irrequieta e criativa, fiz alguma 'arte' e mereci umas palmadas.

Mas, várias vezes, apanhei no lugar de meu irmão mais velho, Valdir, que aprontava feio e sobrava pra mim. Outras, eu aprontava, e sobrava pra ele...
.

Quantas e quantas vezes ela o pilhava cabulando aula no antigo e famoso Campo do Praia. Ele ficava de castigo, de cara para a parede, e eu apanhava porque não tinha contado para ela onde ele estava.

Meu senso de justiça ficou aguçadíssimo. Foi mais uma forma de aprender. E Dona Francisca Lima, matriarca de filhos homens (mais conhecida como Dona Chiquita), fazia questão de ensinar tudo 'direitinho'.

Ontem, dia 2, você se foi para sempre. E, no seu velório, no nosso último adeus, eu estava acariciando suas mãos e lembrei-me de todas essas coisas.

E ali, ao beijá-las pela última vez, o que me lembrei foi, mesmo, dos carinhos daquelas benditas mãos que me ampararam e me envolveram junto a seus braços, enquanto ela me amamentava, enquanto curava meus ferimentos das brincadeiras nas ruas e no quintal, e enquanto afagava meus cabelos, para me fazer dormir.

Muitos poderão não acreditar, mas me lembro perfeitamente de mamar e de ficar acompanhando, com o dedinho, os caminhos das pequenas veias em seu seio. Lembro do perfume, do talco e da lavanda Cashmere Bouquet e da Água de Colônia 4711 que usava. Jamais esquecerei.

Foi também lembrando tudo isso que me veio à mente escrever este tributo às benditas mãos de mamãe.

Sempre achei que apanhar de minha mãe fazia parte da vida.

Podia haver alguma suposta injustiça na hora da execução da pena, quando, por exemplo, num aparente erro judiciário, 'paguei o pato' por uma traquinagem do meu irmão, ou ele, por uma travessura minha.

Mas, quando isso acontecia, a punição era bem merecida porque sempre tínhamos alguns delitos ocultos em nossas molecagens.

Quando já tinha passado o meu tempo de levar umas bordoadas maternais de palmatória, surgiram novos conceitos, digamos, educacionais, que aboliam desde o tabefe mais brando até a bronca, proferida pela voz dos pais numa escala cromática em que os semitons nem alcançavam a amplitude dos berros educativos.

Eram os novos tempos da liberdade sem medo, a partir da meninada de Summerhill, uma das pioneiras dentro do movimento das escolas democráticas. Dos métodos desse ou daquele, que passaram a ser aplicados, no lar e na escola, com açúcar e com afeto, sem imposição de limites.

Imaginava-se, então, que a criançada dos novos tempos estaria imunizada contra os vícios e defeitos da geração que adolesceu nos anos 50 dançando o diabólico rock-and-roll, vislumbrando, em grave luxúria, as ancas "imperceptíveis" de Brigitte Bardot, indo às matinês dos domingos, jogando futebol nas pacatas ruas transversais de Santos, ouvindo rádio e tomando Guaraná Caçula.

Tinha-se a certeza de que a nova geração, sem tapas nem castigos, estaria vacinada contra as drogas, a violência, as frustrações, o medo, a depressão, a insegurança, os vazios da personalidade, as falhas de caráter, as ambições e o materialismo.

Lembro-me dos 'equipamentos de tortura' disponíveis no casarão de minha infância, à Avenida Ana Costa, 290, com os quais minha mãe, a seu modo, e com a melhor das intenções, tentou evitar que os filhos seguissem o temível caminho do mal.

Claro que não faltaram o açúcar e o afeto. Também o conselho e o exemplo foram bons ingredientes da eclética receita educativa indígeno-baiana de minha querida e esforçada mãezinha, persistente diante de minha teimosia, de nossas reincidências e de nossas incuráveis malcriações.

Mas o arsenal utilizado (palmatória e cinto), nos momentos mais críticos de nossas insubordinações e desvarios, foi fatal. E utilíssimo.

Antes de tudo, o olhar 'a laser', com que minha mãe, tão simples, se antecipava às ciências do futuro.

Em seguida, vinham suas próprias mãos, que se transmudavam da maciez plena de ternura e de proteção, para o tapa irrepreensível, ou para o ético e literal puxão de orelha (aliás, não me lembro de minha mãe ter me dado um puxão de orelha...).

Havia, também a imensa colher de pau, feita por meu avô, Seu Francisco, Marceneiro. Exatamente aquela que, nas mãos de minha mãe, girava nas panelas e tigelas a produzir meus mingaus preferidos, de aveia e de maizena, os bolos, que só ela sabia fazer, e o fabuloso doce de leite da 'vó' Adelaide.

Finalmente, a artesanal correia de couro, feita pelo bondoso sapateiro da Rua Pedro Américo, seu Afonso, encomendada por minha avó, e que se pendurava atrás da porta da cozinha, como uma permanente e bíblica advertência, de que sempre haveria limites e regras a respeitar.

A correia atrás da porta era um ícone da punição que, em verdade, dependia de mim. Eu colhia amor, doçura, compreensão, exemplos, e era tangido para o futuro com a força de persuasão do olhar, da palavra, do silêncio ou do castigo.

Aprendi que a vida imporia limites. A vida diria "não"! Fecharia portas. Não daria tudo. Às vezes, a vida tiraria tanto. E golpearia pelas costas, sem amor, sem ternura, sem ser para corrigir, ou para educar ou para mostrar o caminho. Mas, aprendi também que isso não impede o passo, nem o caminhar em linha reta.

Por isso acredito em minha verdade: bem-aventuradas as mãos que me feriram, às vezes. Mas que, muito mais, me acarinharam, me ampararam, me alimentaram e me abençoaram sempre.

Agora, que se foi, sinto falta das Benditas Mãos de Dona Chiquita.


(Foto da carteira de identidade, datada de 06 de Agosto de 1946, aos 34 anos)

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27 Comentários:

Blogger Anne M. Moor disse...

Aiiiii Walmir, poeta, amigo que encontrei nesta aldeia virtual, como diria Flávio, que texto cheio de poesia, de sentimento, de emoção e de tantas verdades... Está aqui os frutos de Dona Chiquita, Mulher com letra maiúscula.
Parabéns pelo texto belo e obrigada por compartilhar conosco a tua vida...
Beijão

4 de agosto de 2007 09:09  
Blogger Jorge Lemos disse...

Filho amigo Walmir:

Foi-se Dona Chiquita:
A dor da partida, tão bem sentida
por ti e por nós, mostra a importância da vida que é só sentimento.
Lá está ela com seu dedo indicador dizendo:
Filho meu que se fez homem, amado e honrado.
Este o prêmio da vida.

4 de agosto de 2007 12:59  
Blogger Walmir Lima disse...

Pois é, meus caros Anne e Jorge.
Imaginem o amor, a personalidade e a força dessa mulher, sem muita cultura, para criar sozinha, sem marido, quatro filhos homens em plenos anos 50 e 60.
Quanta renúncia e quanto amor!

4 de agosto de 2007 20:13  
Blogger Walmir Lima disse...

Ela conseguiu!

4 de agosto de 2007 20:15  
Blogger Angela disse...

Exemplo a ser seguido por nós mães e pais de hoje, sem coragem e amor suficientes para dizer "não" aos nossos filhos.

Walmir,
Dona Chiquita se fez muito maior quando parecia "punir", era neste momento que ela fazia dos filhos homens de verdade, homens para a vida inteira.

Minha admiração pela força e retidão dessas mães nordestinas, principalmente em décadas tão difíceis para as mulheres.

Com carinho!

4 de agosto de 2007 21:46  
Anonymous Estephania Lemos disse...

Walmir

Benditas Chiquitas que habitaram o mundo. Sinta-se premiado ao ter tido uma mãe como ela; espécie rara nos dias que se seguem.

Beijo seu coração.
Estephania

5 de agosto de 2007 16:31  
Blogger  disse...

Que texto cheio de amor e admiração!
E que filho lindo ela soube fazer e soube moldar.
Viva sua mãe Walmir.Linda de todas as formas.
Bjo.

5 de agosto de 2007 20:33  
Blogger Hector disse...

ê, vó chica... bonito texto, pai!

e bonita foto, acho que eu não tinha visto ainda.

6 de agosto de 2007 00:11  
Blogger Flávia Durante disse...

que texto bonito!!;~~

6 de agosto de 2007 00:37  
Blogger Flavio Ferrari disse...

Na tua memória ... não poderia estar em melhor lugar ...

6 de agosto de 2007 00:40  
Blogger zuleica-poesia disse...

Lamentei a sua perda, mas ela não foi total. Parte dela continua dentro de você e o faz ser especial para todos nós.-abraços-zuleica

6 de agosto de 2007 10:48  
Anonymous Mariana (sobrinha) disse...

TIO...
GOSTEI MUITO DO SEU TEXTO...
SE ELA ERA UMA BOA MAE NAUM SEI...
MAIS COMO VÓ ELA É DE MAIS... MESMO AS BRONCAS DELA ELA FOI UMA SUPER VÓ... AGORA SÓ RESTARAM LEMBRANÇAS DE UMA MAE E DE UMA VÓ QUERIDA E AMADA.. QUE FEZ DE NOSSAS VIDAS UMA ALEGRIA...
LINDA TODAS AS FORMAS QUE VOCE DIZ SOBRE SUA MAE...
LEMBRO-ME AGORA DE NOSSAS RISADAS COM ELA.. QUE NUNCA SERÃO ESQUECIDAS...LEMBRANDO TAMBÉM DAS BRONCAS QUE A CHIQUITA DAVA NO TIO WALKIRIO... QUANDO CHEGAVAMOS PARA ALMOÇAR ELA ME ABRAÇAVA COM MUITA FORÇA..." QUE FORÇA" E TAMBÉM CHORAVA COM A NOSSA CHEGADA EM SUA CASA...
VIVI BONS MOMENTOS COM ELA...
QUE NUNCA SERÃO E JAMAIS SERÃO ESQUECIDOS....
BEIJOS TIO DA SUA SOBRINHA QUE TE AMA E ADORA MUITO...

6 de agosto de 2007 14:29  
Anonymous Maria Helena disse...

Querido amigo Walmir,

Admirável Dona Chiquita, fez belezas nesse mundo.Deixou-as presentes entre nós. Jamais serás esquecida.
Um forte abraço!

7 de agosto de 2007 14:56  
Blogger Walmir Lima disse...

Amigos todos,
Sou mesmo um abençoado, sim, também por tê-los como meus grandes amigos, que não me faltam nessa hora.

Queria fazer um agradecimento especial ao meu 'irmãozinho mais novo' e Amigo, Ernesto, por ter-me acompanhado na descida a Santos, em plena madrugada, me amparando naqueles momentos de tristeza e angústia.

7 de agosto de 2007 23:56  
Blogger Walmir Lima disse...

Mariana, sobrinha querida,
No momento em que alguns adultos, que visitam os Blogs, têm receio de escrever, vejo que você, uma linda mocinha, ainda entrando na adolescência, tem evoluido em seus comentários, demonstrando coragem, iniciativa e talento.
Continue estudando sempre e se expressando, como está fazendo, e você, um dia, ainda será uma grande escritora.
Um beijo do tio que te adora.

8 de agosto de 2007 00:07  
Anonymous Jaqueline disse...

Walmir...
Embora não o conheça há muito tempo, embora não tenha conhecido esta grande mulher... senti a dor da saudade quando li um pouquinho sobre a vida desta que sem sombra de duvida, foi uma pessoa muito importante e especial para todos q tiveram o privilégio de conhece-la.
E benditas sejam as mãos de Dona Chiquita que, agora, de forma imortal te acompanhará para sempre, em seu coração e em suas mais doces lembranças...

com carinho!

11 de agosto de 2007 11:40  
Blogger Walmir Lima disse...

Jaqueline,
Grato por tua visita e pelas palavras, reveladoras de tua linda sensibilidade.
Espero que volte sempre e se integre ao nosso grupo, visitando os outros e interessantes Blogs que compõem nossa Blogosfera.
Um abraço

11 de agosto de 2007 12:28  
Anonymous Maria Helena Trevisan disse...

Walmir
Hoje reli sua matéria tão profunda e singela. É muito lindo tudo que diz de seu relacionamento como filho, o amor de mãe e filhos, faz se pensar muito nos dias de hoje, como as coisas mudaram, mas que o amor e carinho sempre prevalecem . Os limites na hora certa também , de extremo valor educacional. Mostra-se como se ama o filho, mesmo com limites. Parabéns. Continue escrevendo , tens um lindo dom. Abraça-nos com suas postagens.
Um forte abraço.
Maria Helena

11 de agosto de 2007 12:49  
Anonymous Thiago Lima disse...

Pai, amado pai!
Faço meus o seus sentimentos. A triste perda a triste ausência, porem ficou a certeza de que ela era muito amada por seus filhos, netos e entes queridos, amigos e todos. Nos seus 95 anos de vida, bem vivida, com saúde e força, q poucos ainda hj tem. Por nunca ter entrado num hospital - isso não é normal - nos deixa um gene que se mostra na família grande de 4 filhos; sendo que o mais novo foi quem lhe deu um bisneto. É seu, Walmir. Você já é avô, e com cara de jovem, dá força e esperança a essa nova vida que entra na família. Antonio, mais um homem dessa matriarca, única, que nos dava ensinamentos em todos momentos compartilhados. Tenho certeza d q ela está bem e olhando a todos nós lah de cima. Essas palavras não podem expressar meus sentimentos, mas, pelo menos, eu tento. Te amo muito, Paizão e tenha certeza de que vc pode contar comigo. Não se sinta só. Estamos aqui, seus filhos, irmãos e amigos que tanto gostam de vc.
Bjão, Pai amado!

12 de agosto de 2007 17:56  
Blogger Walmir Lima disse...

Haja coração! Aí, eu choro. Carece dizer mais?

12 de agosto de 2007 18:14  
Blogger Walmir Lima disse...

Carece viver mais!

12 de agosto de 2007 18:14  
Blogger Ernesto Dias Jr. disse...

Esse é o legado, irmão. E a resposta à tua incerteza do outro dia, lá no Shake, antes do acontecido:
Referências não desaparecem. Passam do antes de nós para o depois de nós.
E, também, olha bem para os quatro e vê: agora TU és, finalmente, a referência.
Olha pra frente e desfruta. Você merece, eu bem sei quanto.

15 de agosto de 2007 23:36  
Blogger Maria disse...

Walmir teu conto me aqueceu a alma. Naveguei por linhas e espaços, voei no tempo, me reconheci em flashs, me deliciei com a docilidade e a essência do sentimento.
Lindo!
Bjs

16 de agosto de 2007 00:57  
Blogger Maria disse...

Reli, Li os outros comentários e percebi que eras o personagem. Me senti longe e perto, longe para não poder te dar um abraço apertado cheio de carinho e perto por que posso te dizer agora com todo meu coração, que estou aqui, como todos os outros ao teu lado, sinto muito amigo!

16 de agosto de 2007 01:04  
Blogger Walmir Lima disse...

Maria, agradeço tua presença sublimar que permeia e conforta com o dom da amizade e da admirável poesia.

16 de agosto de 2007 20:53  
Blogger ANA disse...

Aunque sea a destiempo este comentario, los sentimientos por la ausencia de una madre, son intemporales, no se borran de nuestra mente.
Yo doy gracias a Dios de tener a la mía conmigo todavía. Y comparto el sentir de una perdida tan grande, de una mujer, la mujer, una madre como ella.
Por ella,
un abrazo,
ana.

20 de novembro de 2007 19:36  
Blogger Walmir Lima disse...

Estimada Ana
Gracias por tus palabras y por tus sentimientos que me emocionan.
Un cariño.

20 de novembro de 2007 20:42  


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