(Mário Quintana)

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sábado, 2 de maio de 2009

O Dia Em Que Ray Chorou

© Walmir Lima
Ray


Existem experiências na vida da gente que nos marcam para sempre.

Essa me aconteceu lá pelos idos dos anos 80.

Naquela época, tive que ficar morando por três meses no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, para acompanhar e coordenar o descarregamento complicado de três navios, vindos de Bangladesh, que havíamos afretado.

Mas foi esse acontecimento que, apesar de, ele próprio, já ser marcante e cheio de histórias, me proporcionou outra experiência, absolutamente impensável, que marcou, ainda mais, a minha vida.

Eu descia para o restaurante do Hotel bem cedinho, quase de madrugada, já que eu tinha que chegar ao navio bem antes para organizar o início das operações portuárias.

Eu, quase sempre, era o único naquele horário a tomar o café da manhã - a mesa ainda não totalmente posta.

Certo dia, havia mais alguém. Um hóspede estrangeiro que, sem falar português, e, com apenas algumas palavras em espanhol, cheias de sotaque inglês, ‘lutava’ polidamente, mas não conseguia se fazer entender pelo garçom.

A figura do hóspede me chamou a atenção pelo seu visual incomum. A barba branca e o cabelo comprido, prateado, escorrido como se tivesse secado do jeito que saiu da piscina, era super liso e sedoso e tinha um corte certeiro como se o barbeiro tivesse usado um gabarito indígena.

Gelei. Sou bom fisionomista, mas... não podia ser. Ainda incrédulo, imaginei estar sonhando ao pensar tê-lo reconhecido. E gelei ainda mais quando ele me viu e, todo esperançoso, me perguntou:

- O senhor fala inglês? Pode me ajudar aqui, por favor?

Depois de pedirmos o complemento, que não constava do menu do café ‘continental self-service’, que é servido em nossos hotéis, ele, agradecido, amavelmente, me convidou para que sentássemos à mesma mesa. E foi nas apresentações que constatei que aquele hóspede, um velhote simpático, era mesmo, nada mais, nada menos que o

Maestro Ray Conniff

Ray estava em mais uma de suas turnês pelo Brasil, país onde, por décadas, fez grande sucesso e ao qual, várias vezes, declarou profundo amor e dedicou turnês, discos e arranjos especiais, como o mais famoso e lindo arranjo da música ‘Aquarela do Brasil’ que se conhece.

E assim foi por vários dias. No jantar era a mesma coisa. Ray não jantava enquanto eu não chegasse do porto. Muitas vezes ficava no restaurante me esperando, até muito tarde.

E ficávamos jantando e conversando, ao som, ao vivo, do piano da excelente Liane Valin, pianista carioca, filha de um antigo professor, criador de um método todo especial e simples para o aprendizado de pianistas – o famoso Método do Professor Valin.

Conversávamos durante horas, trocando experiências e histórias de nossas viagens pelo mundo. Eu, com boa parte das minhas viagens a lugares super exóticos, acompanhando carregamentos e descarregamentos de navios, em verdadeiras aventuras que poderiam servir, tranquilamente, de base para roteiros de cinema, e ele, com sua arte – Ray Conniff, Orquestra e Coral - de estilo e arranjos absolutamente únicos e sensacionais, a encantar multidões ao redor do mundo.

Riamos muito e nos emocionávamos muito também com as histórias e situações incríveis, de um e do outro.

Mas foi numa certa noite que nos emocionamos mais e profundamente.

Eu precisava dizer. Eu precisava fazer uma homenagem àquele homem - de carne e osso, sim - ali, diante de mim, mas que eu tinha como um verdadeiro ídolo, tamanha a minha sincera admiração.

E eu disse:

- Sabe, Ray? Há algo que carrego comigo por vários anos e que preciso te falar. E sei que falo por milhares de contemporâneos meus.

Você, com sua música maravilhosa, foi o “responsável” pelo namoro e pelo casamento de toda uma geração, ou mais – a minha, pelo menos.

Quantos de nós começamos a namorar com nossas futuras esposas durante os bailes de formatura ou nos famosos ‘bailinhos de garagem’, regados a “Cuba Libre” (coquetel feito com rum e Coca-Cola) e dançando ao som da Orquestra de Ray Conniff, cujos discos ‘bolachões’ de vinil se gastavam de tanto tocar na ponta das agulhas das vitrolas de 33 rotações? Quantos belos casamentos e seus filhos surgiram daí?

Quem não se lembra de ter dançado coladinho, sentindo o corpo e o perfume delicioso das meninas, ao som de “Besame Mucho”, “La Mer”, “Love Is A Many Splendored Thing”, “Aquellos Ojos Verdes”, “Strangers In The Night” e tantas outras músicas, de seu repertório incrível e seu estilo único e incomparável?

Foi aí que os olhos de Ray se encheram de lágrima, assim como os meus.

E eu jamais esqueci. Acho que ele também não.

Ray se foi do Brasil e nunca mais o vi ou falei com ele.

Ray se foi desse mundo no dia 12 de Outubro de 2002, prestes a completar 86 anos.

Foi espalhar amor em outra dimensão.

E eu fiquei com a certeza de ter conhecido o ‘Cupido’ em pessoa.



"Besame Mucho" :



"Aquarela do Brasil" :







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