(Mário Quintana)

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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Da Importância do Ser Conciliador

© Walmir Lima


Da Importância do Ser Conciliador



Chego aqui, à última parte de uma trilogia - da trilogia representativa de uma visão atual da vida, de uma experiência. São valores que foram sendo assimilados duramente, ao longo de um caminho que só eu sei o quanto foi, e tem sido, difícil.

Tem sido mais fácil perceber do que praticar.

Praticar demanda vigilância - vigilância permanente. Se eu pudesse comparar, essa vigilância seria quase a mesma para se ficar alerta contra as investidas sorrateiras do vício – o vício do ódio (veneno mortal) e de seus primos-irmãos, o vício do preconceito, o vício da intolerância, da incompreensão e do desamor.


A primeira parte foi o texto “Da Importância de Dizer: Eu Te Amo”, a segunda, o “Da Importância do Perdão”, e, agora, o “Da Importância do Ser Conciliador”.


A essência desses valores está em três chaves:


- Dizer “Eu te Amo”, abrindo o coração para irradiar o que de mais lindo a Grande Força espera de nós: ser a fonte do Amor, em todas as suas formas.


- Perdoar ao próximo e a si mesmo, que é a outra forma de se purificar a alma.


- Procurar ser O Conciliador, a figura do sábio, ser o terceiro ponto, o ponto de desequilíbrio e ajudar, de alguma maneira, a remover a dificuldade do diálogo e da tolerância, que são as outras formas de se emanar luz através da compreensão e do respeito ao próximo, procurando trazer Paz a cada pessoa, à comunidade, aos povos.


E isso vale para todos os níveis, desde a nossa simples vida, a partir da micro-célula, a Cellula Mater da sociedade - a família - até atingir todos os povos do planeta, nossos irmãos.


Bem, o tema da dificuldade do diálogo, da dificuldade da negociação, me faz lembrar de uma de minhas histórias favoritas do Oriente Médio, que ouvi há alguns anos, em uma palestra, e que conto aqui, como primeira ilustração, para os exemplos que quero dar de como podemos nos tornar “o terceiro ponto”, a figura do Conciliador, que, como disse, e creio, vale para desde uma simples família até para a tentativa de resolução de um conflito internacional.


É a história de um homem que deixou para seus três filhos 17 camelos.


Para o primeiro filho, deixou metade dos camelos. Para o segundo filho, deixou um terço dos camelos e para o mais novo, deixou um nono dos camelos.


Então, os três filhos começaram a negociar: 17 não é divisível por 2, não é divisível por 3 e não é divisível por 9.


Assim, a relação entre os irmãos começou a ficar tensa.


Já em desespero, eles saíram e consultaram uma velha sábia. A velha sábia pensou no problema deles por muito tempo e, finalmente, ela voltou e disse:


“Bem, eu não sei se eu posso ajudá-los, mas, se vocês quiserem, pelo menos, eu posso dar-lhes o meu camelo.”


E assim, eles ficaram agora com 18 camelos.


O primeiro filho pegou a sua metade – metade de 18 é 9;

O segundo filho pegou a sua terça parte – um terço de 18 é 6;
O mais novo pegou a sua nona parte – um nono de 18 é 2;

Logo, 9 mais 6 mais 2 são 17; e sobrou um camelo que eles devolveram à velha sábia.



A Utopia da Paz


Agora, se você pensar nessa história por um momento, verá que ela se assemelha a muitas negociações difíceis em que nos envolvemos. Elas se iniciam em "17 camelos", ou seja, sem maneira de resolver. De alguma forma, o que nós devemos fazer nessas situações é dar um passo atrás, como a velha sábia, olhar a situação com novos olhos e achar "o 18º camelo".


Achar o 18º camelo nos conflitos tem sido a paixão da minha vida. Eu, basicamente, vejo a humanidade como aqueles três irmãos: nós todos somos uma família.


Nós sabemos que, cientificamente, graças à revolução nas comunicações, todas as tribos do planeta - todas as 15.000 tribos - estão em contato, umas com as outras. E isso é uma grande reunião familiar, e, como em muitas reuniões familiares, nem tudo é paz e amor !!


Há muitos conflitos, e a questão é: como nós lidamos com nossas diferenças ? Como lidamos com nossas mais profundas diferenças, dada a propensão humana ao conflito e o gênio humano que cria armas de enorme destruição ? Essa é a questão !!


Enquanto eu gastava parte das últimas três décadas, quase quatro, viajando pelo mundo, tentando trabalhar, me envolvendo em conflitos familiares e profissionais, eu via, da Iugoslávia ao Oriente Médio, da Chechênia à Venezuela, da Inglaterra à Argentina, alguns dos mais difíceis conflitos na face da Terra, e me fazia essa pergunta: Qual é o segredo da Paz ? Qual é o segredo do entendimento humano?


É realmente surpreendentemente simples - não é fácil, mas é simples. Nem é novidade. Deve ser uma das nossas mais antigas heranças:


O segredo da Paz somos NÓS !!


Somos nós quem age quando a comunidade ao redor está em conflito, somos nós quem pode desempenhar um papel construtivo.


Deixe-me contar uma história, um exemplo...


Cerca de 20 anos atrás, eu estava na África do Sul e pude, então, conhecer um pouco sobre os vários grupos de San Bushmen. Eu estava curioso sobre eles e sobre como eles resolviam seus conflitos. Porque, acima de tudo, fiquei sabendo que eles eram caçadores e coletores, vivendo de forma primitiva, mais ou menos como nossos ancestrais viveram por, talvez, 99 por cento da história da humanidade.


Todos tinham flechas envenenadas, que usavam para caçar - absolutamente fatais !! Então, como eles lidavam com suas diferenças ?


Bom, o que eu aprendi é que, sempre que os ânimos se exaltam nessas comunidades, alguém vai e esconde as flechas envenenadas no mato, e todos sentam em círculo, no meio da tribo, e eles falam, e falam, e falam. Deve levar 2 dias, 3 dias, 4 dias, sei lá, mas eles não desistem até que encontrem uma solução, ou, melhor ainda: uma RECONCILIAÇÃO !!


E, se os ânimos ainda estiverem altos, eles mandam alguém visitar seus parentes, como um período dedicado para se acalmar. Bem, esse sistema é, creio, provavelmente, o sistema que nos manteve vivos até agora, dada nossa tendência humana.


Este sistema, eu chamo de “Terceiro Lado”, porque, se você pensar bem, normalmente, quando pensamos num conflito, quando o descrevemos, sempre há dois lados: são Árabes versus Israelitas, trabalho versus gerência, marido versus esposa, Republicanos versus Democratas, direitistas versus esquerdistas, e etc., mas o que nem sempre vemos é que há sempre um terceiro lado do conflito. E o terceiro lado do conflito somos nós, é a comunidade vizinha, são os amigos, os aliados, os membros da família, os vizinhos. E podemos ter um papel incrivelmente construtivo.


Talvez, o mais fundamental em que um terceiro lado possa ajudar, é de lembrar as partes o que realmente está em jogo e de focar na solução.


Pelo bem de nossos filhos, pelo bem de nossa família, pelo bem da nossa comunidade, pelo bem de nosso futuro, vamos parar de brigar por um minuto e começar a conversar. Porque, o fato é: quando estamos envolvidos em um conflito, é muito fácil perder a perspectiva, é muito fácil reagir. Nós, seres humanos, somos máquinas de reagir !!


Enquanto as palavras vão saindo (quando com raiva), você faz o melhor discurso e... você vai se arrepender !!


Então, o terceiro lado nos lembra, o terceiro lado nos ajuda a “ir até a varanda” - que é uma metáfora de um lugar de perspectiva, onde podemos manter os olhos no objetivo, ao invés de procurar se defender atacando os outros. Feito isso, a conversa geralmente volta aos eixos.


Esse é o papel do terceiro lado: é ajudar as partes a “irem à varanda”.


Agora, vamos pensar, por um momento, no que é largamente considerado como o conflito mais difícil do mundo: o conflito do Oriente Médio.


A questão é: há um terceiro lado lá ?  Como possivelmente poderemos, nesse caso, "ir para a varanda" ?  Obviamente, eu não pretendo ter uma resposta ao conflito do Oriente Médio, mas penso que talvez possamos, como comunidade global, encontrar, e dar, o primeiro passo, literalmente o primeiro passo, algo que qualquer um de nós pode fazer como terceiros. Não é utopia !!


Quantos de nós, nos últimos anos se preocuparam com o Oriente Médio e se perguntaram “o que eu posso fazer ?”. Creio que a grande maioria de nós um dia já se preocupou, ou ainda se preocupa. Mas, aqui é tão longe, por que prestamos tanta atenção neste conflito ? Seria o número de mortos ? Há muito mais vezes pessoas que morrem em conflitos na África, ou nas ruas das nossas próprias metrópoles, do que no Oriente Médio !!


É por causa da história - porque nos sentimos pessoalmente envolvidos na história. Não importa se somos Cristãos, Muçulmanos ou Judeus, religiosos ou não. Sentimos que temos algo pessoal em jogo. 


As histórias são levadas em conta - Antropólogos, sabem que sim. Histórias são o que usamos para transmitir conhecimentos, e esses é que dão sentido à nossa vida. É o que fazemos na vida: contamos histórias.  Histórias são a chave!!


Então, minha questão é:  Sim, vamos experimentar e resolver a política do Oriente Médio, mas também, a partir de uma olhada na história, vamos tentar encontrar a raiz de tudo isso, vamos ver se e onde podemos aplicar o “terceiro lado” nisso.


Bem, os Antropólogos também sabem que cada cultura tem uma história de sua origem.


E qual é a história do Oriente Médio ? 


Em uma frase é: 4.000 anos atrás, um homem e sua família andou pelo Oriente Médio e o mundo nunca mais foi o mesmo !!

Aquele homem, claro, foi Abraão.


E ele representava a unidade da família. Ele é “o pai de todos”. E não é apenas o que ele representa, mas também qual foi sua mensagem. Sua mensagem básica foi pela unidade, pela interconectividade - a unidade de todos !!


E seus valores básicos eram respeito, era gentileza para com os estrangeiros. É por isso que ele é conhecido: por sua hospitalidade. Então, dessa forma, Abraão é um “terceiro lado” simbólico do Oriente Médio.


Ele é aquele que nos lembra que somos todos parte de um grande todo.


Agora, e nós ?  Pensemos nisso por um momento... Hoje enfrentamos o flagelo do terrorismo.


E o que é terrorismo ?


Terrorismo é, basicamente, pegar um estranho inocente e tratá-lo como um inimigo que se mata para criar pânico.


E o que é o oposto ao terrorismo ?


É pegar um estranho inocente e tratá-lo como um amigo, que você convida para sua casa para semear e cultivar o entendimento, o respeito, o amor.


E, se, então, você pegar a história de Abraão ?  E se isso for um antídoto para o terrorismo ?  E, se isso for uma vacina contra a intolerância religiosa ?  Como poderemos dar vida a essa história ?  Não basta apenas contá-la - que é poderosa - mas as pessoas precisam experimentar a história, precisam ser capazes de viver a história.


Como fazer isso ?  Isso é o que vem primeiro aqui, por causa da forma simples de fazer isso: é você sair em uma caminhada.


Você faz uma caminhada sobre os passos de Abraão, você retraça os passos de Abraão, porque o andar tem um poder real.


E, apelando de novo aos Antropólogos, podemos dizer que eles sabem que andar é o que nos faz humanos.


É engraçado... Quando você caminha lado-a-lado, caminha na mesma direção, caminha na direção comum. Agora, se eu fosse para chegar até você, cara-a-cara, e chegasse, assim, bem perto de você, você se sentiria ameaçado, mas se eu caminhar ombro-a-ombro, mesmo que tocando os ombros, não há problema - estamos indo na mesma direção !!


É por isso que sempre nas negociações de escopo internacional, quando as coisas ficam difíceis, as pessoas envolvidas vão caminhar lá fora, andar entre as árvores, andar ao ar livre, andar lado-a-lado.


O potencial é, basicamente, mudar o jogo. E, para mudar o jogo, você deve mudar o cenário, a forma como vemos as coisas, para mudar o cenário da hostilidade para a hospitalidade, do terrorismo para o turismo. E, neste sentido, “O Caminho de Abraão” seria uma mudança do jogo.


Assim, a exemplo do famoso Caminho de Santiago de Compostela, surge a idéia de inspirar um caminho, uma rota do Oriente Médio, uma rota de integração dos povos.


Pense numa rota, pense numa trilha que seguisse os passos de Abraão. Muitos diriam: isso é loucura, você não pode retraçar os passos de Abrão. É muito inseguro, você teria que cruzar todas aquelas fronteiras - ela passaria por 10 diferentes países do Oriente Médio, porque ela os une, a todos, indo de seu local de nascimento, a cidade de Ur, no sul da Turquia, norte da Mesopotâmia. Daí então, pegar um ônibus e ir para Harran, onde, na Bíblia, ele inicia sua jornada. Então, cruzarmos a fronteira da Síria, irmos para Aleppo, que mudou seu nome depois de Abraão. Irmos para Damasco, que tem uma longa história associada a ele. Depois, irmos para o norte da Jordânia, e então, para Jerusalém, que tem tudo a ver com Abraão, para Belém, e, finalmente, para o lugar onde ele foi enterrado, em Hebron.


Dessa forma, de fato, iríamos, do berço ao túmulo, caminhando em Israel, na Palestina, na Jordânia, na Turquia e na Síria, mostrando que pode ser feita - uma jornada fantástica !!


Eu já estive em boa parte daquela região e posso afirmar que, aqui na terrinha, temos uma ideia muito errada sobre as pessoas comuns de lá. O que nos passam os filmes e as notícias específicas, dirigidas, é de que se trata de um povo radical, grosseiro e hostil, quando, posso afirmar que, no geral, se trata de um povo simples, puro e, principalmente, hospitaleiro.


Integrá-los ao nosso convívio inserindo-os em nossos roteiros de viagem talvez seja uma forma de mudar a perspectiva em ambas as visões. Nós nos conheceríamos melhor mutuamente, compreenderíamos as idiossincrasias intrínsecas às culturas (a nossa e a deles).


Incrementaríamos sua micro-economia e desfrutaríamos das belezas que lá existem, veríamos de perto e ao vivo os locais históricos de tão grande importância para o conhecimento da história das civilizações e do próprio mundo cristão. Por fim, perceberíamos que podemos conviver, perceberíamos que podemos viver em Paz !!


Quantos de vocês já tiveram a experiência de estar em uma vizinhança estranha, ou numa terra estranha, e alguém totalmente estranho, completamente estranho, chegasse até você e lhe mostrasse cordialidade, talvez o convidasse à sua casa, lhe desse algo para beber, lhe desse um café, lhe desse uma refeição ? Quantos de vocês já tiveram essa experiência ?  Que sentimento isso traz !!


Essa é a essência do caminho de Abraão.


Mas isso é o que você descobre quando você vai a essas vilas no Oriente Médio, onde você espera hostilidade e você recebe a mais fantástica hospitalidade, tudo por causa de Abraão:


“Em nome do pai Abraão, deixe-me oferecer-lhe alguma comida”, eles dizem.


Há, literalmente, centenas de comunidades ao longo do Oriente Médio, ao longo do caminho. Esse é o potencial do Caminho de Abraão.


O que descobrimos é que Abraão não é apenas um personagem de livro para essas pessoas, ele está vivo, sua presença está viva.


Eu soube há alguns poucos anos que, por aqui, no lado ocidental, pessoas começaram a organizar caminhadas nas cidades, no interior das comunidades. Em Cincinnati, nos Estados Unidos, por exemplo, se organizou uma caminhada de uma igreja para uma mesquita, para uma sinagoga, e todas tiveram uma refeição Abraãmica juntos. Foi o dia de Festa de Abraão.


O jornal Manchester Guardian publicou uma peça sobre isso, duas páginas inteiras. Eles entrevistaram uma pessoa local que disse: “Essa caminhada nos conecta ao mundo, foi como uma luz que entrou em nossas vidas. Nos trouxe esperança”.


Aqui em São Paulo também já se tornou um evento anual para milhares de pessoas que correm em um Caminho de Abraão virtual, unindo diferentes comunidades e espalhando, assim, essa ideia - a ideia da hospitalidade Abraãmica - de bondade para com os desconhecidos.


Se você estivesse nas ruínas de, digamos, Londres, em 1945, ou Berlim e tivesse dito: “Em alguns anos esta será a parte mais pacífica e próspera do planeta”, as pessoas poderiam pensar que você certamente estava insano. Mas eles conseguiram, graças a uma identidade comum – a Europa - e uma economia comum.


Se isso pode ser feito na Europa, por que não no Oriente Médio ?


Por que não, graças a uma identidade comum, que é a história de Abraão, e graças a uma economia comum, que pode ser baseada, em boa parte, no turismo ?


Acredito que não haja um conflito no planeta, por mais perigoso, difícil, rebelde, que não possa ser transformado através da boa vontade, da compreensão e da tolerância (incluindo raça, costumes e religião).


Não é fácil, claro, mas é possível. Isso foi feito na África do Sul. Isso foi feito no norte da Irlanda. Pode ser feito em qualquer lugar. Isso, simplesmente, depende de nós. Depende de que tomemos o “terceiro lado”, mesmo que seja com um pequeno passo que pode levar o mundo a um passo mais perto da paz. 


Vamos dar uma parada por um momento. Se vire para alguém que seja de uma cultura diferente, de um país diferente, de uma etnia diferente, alguma diferença, e comece uma conversa, ouça-o. Essa é a ação do Terceiro Lado. Isso é andar pelo Caminho de Abraão.


Há um velho ditado africano que diz: “Quando as teias de aranha se unem, podem pegar até um leão”. 


Se formos capazes de unir nossas redes da paz do “terceiro lado”, se formos capazes de unir nossas redes da conciliação, poderemos parar o leão da guerra !!



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domingo, 7 de abril de 2013

O Sentido da Vida

© Walmir Lima


Hoje, questiono as vidas:
A vida que escolhemos e as vidas que deixamos passar.
Onde estará a essência de tudo?
A meditação me leva a lembrar as palavras do mestre Quintana:


"Quero, um dia, poder dizer às pessoas
Que nada foi em vão…
Que o amor existe,
Que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
Que a vida é bela sim,
E que eu sempre dei o melhor de mim…
E que valeu a pena."

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