(Mário Quintana)

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sábado, 29 de janeiro de 2011

Choram os Céus, Chora o Coração dos Homens

© Walmir Lima



Nossos dirigentes (dirigentes?), negligentes e omissos, nos querem induzir a crer que a culpa pela tragédia é da força da natureza... Da natureza!

A chuva que abençoa é a mesma que mata? Não creio.

Choram os céus, chora o coração dos homens.

É o próprio homem o Carrasco dos incautos que se servem mal da natureza benfazeja. Isto sim!

Esse momento de chuvas e monçōes, para mim, é oportuno, pois me permite dizer algo que queria, a partir do seguinte texto que li recentemente:

"Chove.
Na fonte das águas,
Chove.
Na fronte das lágrimas
Do pretérito calado.
Lavando a chuva
Dos olhos  cansados.
Chovendo nos mares,
Nos mares amados."

Há quanto tempo você não chora? Há quanto tempo seus olhos não são inundados por lágrimas, por estas pequenas gotas que parecem nascer em nosso coração? Há quanto tempo?

Assim vejo a chuva.

Assim como o fenômeno natural da precipitação atmosférica, a chuva, realiza o trabalho de purificar a terra, a água e o ar, também nossas lágrimas têm tal função - a de limpar nosso íntimo, a de externar nossas emoções, sejam elas de alegria ou de pesar.

Precisamos aprender a expressar nossos sentimentos. Nossa cultura possui conceitos arraigados, como o de que "homem não chora", ou que "é feio chorar", que surgem em nossas vidas desde quando crianças, na educação familiar, e acabam por se internalizar em nossa alma, continuando a apresentar manifestações na vida adulta.

Sejamos homens ou mulheres na Terra, saibamos que todos rumamos para a busca da sensibilidade, do autodescobrimento e da expressão de nossos sentimentos.

Tudo que deixarmos guardado virá à tona, cedo ou tarde. Se forem bons os sentimentos contidos, estaremos perdendo uma oportunidade valiosa de trazê-los ao mundo, melhorando nossas relações com o próximo e conosco mesmo.

Se forem sentimentos desequilibrados, estaremos perdendo a chance de encará-los, de analisá-los, e de tomar providências para que possam ser erradicados de nosso interior.

As barreiras que nos impedem de nos emocionar, de chorar, são muitas vezes, as mesmas que nos fazem pessoas fechadas e retraídas. Barreiras que carecemos romper, para que nossos dias possam ser mais leves, mais limpos, como a atmosfera que recebe a água da chuva, e nela encontra sua purificação.

As chuvas dos olhos fazem um bem muito grande. Desabafar, colocar para fora o que angustia nosso íntimo, ou o que lhe dá alegria, é um exercício precioso. Um hábito salutar.

Dizer a alguém o quanto o amamos, quando este sentimento surgir em nosso coração - mesmo sem um motivo especial - será sempre uma forma de fortalecimento de laços, de construção de uma união mais feliz, e, principalmente, um  recurso para elevarmos nossa auto-estima, nosso auto-amor.

Deus nos concedeu a chuva para regar os campos, para tornar mais puro o ar. Também nos presenteou com as lágrimas, para que as nossas paisagens íntimas  pudessem ser regadas e para  que os ares do Espírito encontrassem a pureza.



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domingo, 2 de janeiro de 2011

No Camarim da Vida

© Walmir Lima
No Camarim da Vida

Perceber-se
No espelho
É como lavar
O rosto
Dia a dia
Para retirar
A maquilagem
E remover
A pintura
Revelando
Aos poucos
As marcas
Do tempo
Que afloram
Desnudas
Por debaixo
Do semblante
Sorridente
Do palhaço
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Memórias de um Leitor de Poesia

© Walmir Lima



Já há algum tempo eu não recomendava um livro aqui no ‘O Centauro’. Neste final de semana de Reveillon consegui, finalmente, retomar um pouco minha leitura e, mesmo sendo adepto do não academicismo dos poemas híbridos (poemas sem os grilhões da rima e da pontuação), gostaria de recomendar, inclusive por uma proposta crítica, esse belo livro no qual, paradoxalmente, ao longo da leitura, fui encontrando pontos de apoio e aval acadêmico para minhas velhas convicções.

Falo de "Memórias de um Leitor de Poesia", coletânea de aulas, discurso acadêmico, ensaios e críticas do poeta e professor de literatura Antonio Carlos Secchin, editada pela Topbooks.

O volume consta de um conjunto de dezoito ensaios, a maior parte sobre poetas brasileiros, de ontem e de hoje (Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Jorge de Lima e Chico Buarque, entre outros).

O autor, poeta e ensaísta, o mais jovem membro da Academia Brasileira de Letras, é, como se diz, “um poeta que se fez crítico ou simplesmente um poeta-crítico” e propõe a leitura crítica como ponto de partida para o discurso criativo.

Segundo ele, “a palavra do outro – professor, escritor – tende a carregar-se de um paralisante poder de verdade. Ainda assim, é importante ouvi-la – não para repeti-la, mas para iniciarmos nosso discurso a partir do ponto onde ela se cala, e, desse modo, evitar que nos transformemos em meros bonecos de ventríloquos do pensamento alheio”.

Em quase nove décadas de veemência em sua natureza rebelde, os modernistas, cultores do verso branco e do ritmo dissoluto, fizeram tal alarde contra a poética de rimas ricas e métrica rigorosa de seus antecessores parnasianos que terminaram por sepultá-la sem permitir que sua contribuição gerasse frutos na produção literária herdada e aprendida pelos que os sucederam.

Secchin reconhece que o Parnasianismo pagou o preço do próprio sucesso na medida em que se propagou por todo o país em versões esterilizadas ou estereotipadas, ou ambas.

Ocorreu-lhe, assim, o que de pior pode suceder a um estilo: ser confundido com a diluição que dele faz a multidão de falsos entendidos e dos imitadores sem talento.

O trabalho dele neste livro tem o mérito de buscar resgatar uma Cecília Meireles dos devotos exclusivos de seu detalhamento rebuscado, ou de reconhecer em Vinicius de Morais o “maior poeta lírico da poesia brasileira no século 20”, e não apenas o poetinha sambista e mulherengo.

Li, e é bem verdade, que Secchin é um daqueles bons críticos que se empenham em restaurar, sem afetações, o que de realmente bom e de útil podemos encontrar direto na fonte, direto nas obras, deixando de lado esse folclórico vício, bem brasileiro, de rotular tudo:

- Castro Alves, o abolicionista apaixonado;
- Augusto dos Anjos, o tétrico tísico;
- João Cabral, o inimigo da música;
- Cecília Meireles, a alienada emotiva;
- Vinicius, o bom de papo, pandeiro e copo.

Poeta de talento, Secchin fez um trabalho similar ao de historiadores que vão direto aos documentos originais. Em seu discurso, dissecou, por exemplo, o lirismo de Tomás Antônio Gonzaga, árcade da Inconfidência Mineira e praticamente redimensionou a fortuna crítica do Romantismo brasileiro a partir das diferenças que registrou em suas antologias.

Corajoso e ousado, enfrentou o maior e arriscado desafio a que se pode propor um crítico: definir poesia.

"A poesia é o lugar do imponderável, onde, portanto, até o ponderável pode acontecer. Mas nada disso vale, se o delírio não se submeter ao imperativo da forma”.

Desculpe-me, mas eu acho que vale.

Não é a forma a única fonte de revelação do conteúdo e o imperativo pode castrar a expressão.


 
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